Por que evangélicos importam para o movimento trabalhista?

Tradução do artigo “Why Evangelicals matter to the labor movement“.

O senso comum nos diz que todos os evangélicos seriam contra sindicatos já que eles são teologicamente e politicamente conservadores. Portanto, você pode pensar, o movimento trabalhista não ganharia nada dos 62 milhões de adultos que aderem ao evangelismo nos EUA. Ainda assim, evangélicos desempenham um papel importante em questões como mudança climática, reforma pela imigração, tortura, e tráfico de pessoas. Alguns também são ativos no movimento trabalhista.

Para entender o motivo, é necessário olharmos a história do evangelismo para além do Moral Majority dos anos 1970. Eu aposto que você não sabia que, de acordo com o evangélico Dr. J. Edwin Orr, “o primeiro sindicato foi formado por evangélicos em protesto contra baixos salários”. Orr tinha em mente os 6 mártires de Tolpuddle, Metodistas e evangélicos, que tentaram formar um sindicato em Dorchester, cidade próxima de Londres. Eles foram presos e transferidos para uma colônia penal australiana em 1834, mas ativistas evangélicos lutaram com sucesso para garantir sua libertação.

Mantendo esse legado, a publicação de 2004 da Associação Nacional de Evangélicos (NAE), “For the Health of the Nation: An Evangelical Call to Civic Responsibility” (Para a Saúde da Nação: Um Chamado Evangélico para a Responsabilidade Cívica) argumenta que um bom governo “preserva as responsabilidades ordenadas por Deus das outras instituições da sociedade, como igrejas, outras organização centradas na fé, escolas, famílias, sindicatos e negócios”. Sindicatos tem uma parcela positiva a desempenhar na vida pública, até para os evangélicos.

Isso também ajuda a ter um senso mais claro do que significa ser um evangélico, um tópico que os fiéis tem debatido entre si durante anos. Apenas no último mês de Outubro, a NAE e a LifeWay Research lançaram um relatório conjunto que enfatizada que evangélicos são pessoas de fé que devem ser definidos por suas crenças e não por suas visões políticas ou raça.

Então quais crenças estão no centro do evangelismo? Em resumo, a Bíblia é a mais alta autoridade para a crença. Lá, cristãos evangélicos são ensinados a encorajar não-cristãos a crer em Jesus Cristo como salvador. A morte de Cristo na cruz remove as penas do pecado. Crer em somente Jesus Cristo como salvador torna possível receber a graça gratuita de Deus da salvação eterna.

Cerca de 30% dos americanos possuem essas crenças, e é um grupo bem diverso entre si. Ao contrário das representações da mídia, evangélicos incluem muitos Protestantes afro-americanos, embora eles sejam frequentemente “separados das pesquisas para identificar as preferências políticas dos evangélicos”. Evangélicos também incluem muitas pessoas da classe trabalhadora, membros de sindicatos e outros que são simpatizantes dos sindicatos.

Eu encontrei poderosas evidências disso em entrevistas que conduzi com trabalhadores afro-americanos evangélicos, membros do então Local 369 da Associação Internacional dos Maquinistas e Trabalhadores do Espaço Aéreo (IAMAW), na sequência de sua greve de 2009 contra a fábrica Moncure Plywood na Carolina do Norte. Suas visões sugeriam criativos caminhos para os futuros trabalhadores evangélicos, se aquela faísca acendesse. Por exemplo, evangélicos tem um senso especialmente aguçado da presença de Deus em todos os aspectos da vida cotidiana.

Um membro, Chales Raines, não via distinção entre estar em uma greve e ser um Cristão fiél. Raines tinha sido membro da Igreja Batista Missionária Monte das Oliveiras desde 1981 e um experiente trabalhador em quase todas as fases de produção da fábrica desde seu primeiro dia no emprego em junho de 1968. Seu orgulho pelo trabalho da Moncure Plywood era inegável. Sua teologia do trabalho defendia que se deve “ganhar a vida pelo suor de sua testa, se você não trabalha, você não come” – uma habilidosa combinação de versículos do Antigo e Novo Testamentos.

Sindicatos também “trabalham”, na visão de Raines, por tornarem possível um trabalho tão difícil como na fábrica Plywood. Quando a empresa foi vendida para novos proprietários que eram anti-sindicatos, os trabalhadores chegaram no ponto de paralização. Raines defende que a paralisação pode ser igualada à própria Igreja: “Nós já ouvimos aquele ditado de que a união faz a força, onde dois ou mais três estiverem reunidos em Seu nome, Ele estará no meio. Se Deus está no meio de algo, você deve ser forte.”

Raines recorreu ao verso Bíblico que descreve o que é necessário para formar uma igreja – um pequeno grupo de fiéis que se reúnem em nome de Jesus para evocar Sua presença. Deus estava no meio do Local 369: “Eu sei que Ele nos dava cobertura, pois quando pessoas se reúnem como em Pentecostes quando o Espírito Santo veio como um poderoso vento, todos receberam o Espírito Santo, línguas, então quando pessoas se juntam, fiéis, e rezam por algo, Deus está lá, pois ele não pode voltar atrás em sua promessa”. Raines usou uma história do Novo Testamento para reforçar seu argumento de que Deus estava no meio de sua resistência, abençoando e apoiando aquele trabalho.

A classe trabalhadora evangélica americana tem muito a contribuir para o movimento dos trabalhadores. Sua teologia do trabalho é fundamentada pela doutrina de que tudo é criado como imagem de Deus. Eles ensinam que somos todos co-criadores com Deus para fazer do mundo um lugar melhor enquanto esperamos pela redenção final na base do sacrifício de Cristo na cruz. Só esse pensamento já é vertiginoso, mas evangélicos realmente acreditam nisso mesmo enquanto reconhecem os efeitos do pecado no local de trabalho.

Se alguém acredita que é possível “dar à luz a um mundo novo nascido das cinzas do velho”, esse alguém é seu colega de trabalho evangélico. A maneira como isso irá ocorrer pode não ser familiar e pode até ser desconfortável em diversos aspectos. Mas é improvável que qualquer reavivamento das perspectivas da classe trabalhadora ou do movimentos dos trabalhadores seja possível nos Estados Unidos sem o envolvimento dos seus milhões de evangélicos.

Key Estey é um processor adjunto de Ciência Política no Brooklyn College e o autor de “A New Protestant Labor Ethic at Work”. Sua pesquisa foca na interseção de política e religião, com um foco particular no trabalho e Cristiandade. Esse artigo foi originalmente publicado no blog Working-Class Perspectives, que é hospedado pela Kalmanovitz Initiative for Labor and the Working Poor na Georgetown University.

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